Resultado de estudo pode alterar rotinas de assistência à saúde na atenção primária do SUS

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Foto: Agência Brasil – Fernando Frazão

A pesquisa conta com fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e visa descrever e estimar o estado nutricional, o consumo alimentar e a saúde mental das mulheres durante a gestação e pós-parto e o estado nutricional e desfechos neonatais nos primeiros seis meses de vida do bebê que são atendidos em Unidades Básicas de Saúde (UBSs) de Goiânia. Resultados dos trabalhos podem servir de base para novas recomendações e formulação de políticas públicas.

 

O desenvolvimento da criança começa, de fato, no momento da concepção. A gestante precisa estar bem para que o bebê se desenvolva saudável. A ausência de atenção à fase intrauterina pode dificultar o bom desenvolvimento na primeira infância e consequentemente a formação do adulto.

Considerando que o período gestacional é marcado por diversas mudanças (sejam psíquicas, de comportamento ou metabólicas, além do aumento nas necessidades nutricionais), que podem influenciar no decorrer da gravidez e no desenvolvimento fetal, e também em desfechos materno-infantis, pesquisadores começam a desenvolver um estudo do tipo coorte com ensaio clínico aninhado que será coordenado pela professora Ana Amélia Freitas Vilela, da Universidade Federal de Jataí (UFJ). A pesquisa recebe fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) por meio do Programa Pesquisa para o SUS: Gestão Compartilhada em Saúde (PPSUS).

A equipe pretende descrever e estimar o estado nutricional, o consumo alimentar e saúde mental na gestação e pós-parto das mulheres e o estado nutricional e desfechos neonatais. Paralelo ao estudo de coorte será realizado um ensaio clínico que vai avaliar o efeito do aconselhamento em amamentação, a necessidade do fortalecimento do aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida e atendimentos psicológicos. Caso os resultados sejam evidentes, a proposta da equipe será orientar a inclusão destes profissionais nas equipes de atendimento pré-natal prestado na rede pública de saúde (SUS).

“Nossa proposta é conhecer as mulheres e crianças que são atendidas na rede de atenção básica do Sistema Único de Saúde”, destaca Ana Amélia. A pesquisa foi uma das 20 selecionadas pela chamada pública nº 05/2020 – 7ª Edição do PPSUS e vai receber um fomento de R$ R$ 92.497,00.

O estudo

Será formada uma coorte com mulheres na faixa etária de 20 a 40 anos (idades supostamente mais favoráveis para uma gestação saudável), pertencentes à classe média/baixa que estiverem realizando o pré-natal em Unidades Básicas de Saúde (UBS), e seus filhos nos primeiros seis meses de vida. Estarão envolvidas as UBSs dos distritos sanitários: Campinas-Centro, Leste, Noroeste, Norte, Oeste e Sudoeste, de Goiânia. Ao todo serão avaliados 387 mães e bebês, sendo 295 do estudo de coorte e 92 do ensaio clínico. Eles serão acompanhados em seis momentos diferentes: mais de 35 semanas gestacionais, de 7 a 15 dias pós-parto, um mês pós-parto, dois meses pós-parto, quatro meses pós-parto e seis meses pós-parto.

Saúde mental 

A saúde mental durante a gestação e o pós-parto é um considerável problema de saúde pública e muitas vezes é ignorada. Durante a gestação e puerpério a mulher pode ter sintomas de depressão, de ansiedade e estresse que acabam interferindo na relação mãe e filho e comprometendo os cuidados nutricionais e o desenvolvimento físico, mental e o comportamento da criança.

“O pós-parto é um período de muita atenção com a mulher. Nos primeiros 45 dias é comum a mulher ter sentimentos de muita tristeza e desânimo, período reconhecido como baby blues e estes sintomas podem comprometer o cuidado com o bebê, principalmente o aleitamento materno”.  Segundo Ana Amélia, normalmente é neste período que a mulher, pelo cansaço e dificuldade com amamentação, desiste do aleitamento materno exclusivo e o bebê deixa de receber o alimento mais importante, com todos os nutrientes que necessita. Empoderar essas mulheres sobre a importância do aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade poderá, também, colaborar para reduzir o aumento do sobrepeso e obesidade em crianças, ressalta a pesquisadora.

É neste momento que a pesquisadora destaca a importância do ensaio clínico aninhado à coorte que será feito para mapear a ocorrência e investigar medidas preventivas da saúde mental e incentivo à alimentação saudável durante a gestação e o pós-parto. O estudo vai avaliar a importância da proposta de inclusão de profissionais nas equipes das UBSs para o aconselhamento em amamentação e atendimentos psicológicos a mulheres com sintomas depressivos e dificuldade com a amamentação e o aleitamento materno exclusivo até os seis meses pós-parto.

Os resultados deste estudo poderão subsidiar ações e ferramentas (por meio de capacitações) para as equipes multidisciplinares de unidades de saúde que fazem o acompanhamento de gestantes/mulheres e crianças. “Estes profissionais poderão incluir orientações mais específicas sobre alimentação saudável, estado nutricional e principalmente saúde mental durante as consultas de pré-natal e pós-parto, pois o monitoramento de tais desfechos está diretamente relacionado com o desenvolvimento do bebê”, comenta a pesquisadora.

Hábitos alimentares na gestação

Se a mulher tem hábitos alimentares adequados durante a gestação ela vai ganhar o peso adequado, segundo o seu estado nutricional pré-gestacional. O excesso ou baixo ganho de peso durante a gestação estão diretamente relacionados ao consumo alimentar materno. Os principais desfechos maternos e neonatais de uma alimentação inadequada são diabetes mellitus gestacional (DMG), Doença Hipertensiva Específica da Gravidez (DHEG), parto prematuro, pré-eclâmpsia, baixo peso ao nascer, entre outras. Ana Amélia destaca que algumas suplementações são recomendadas durante a gestação, pela demanda elevada do feto, como ácido fólico e ferro, principalmente.

Nutrição na primeira infância

O estado nutricional (consumo alimentar, índice de massa corporal (IMC), peso e estatura) na primeira infância é muito importante, pois irá refletir na vida adulta. O aleitamento materno exclusivo (AME) até os seis meses (sem adição de água, chá e qualquer outro líquido e alimento) reflete muito no ganho de peso da criança e na alimentação. Normalmente as crianças que tiveram AME possuem alimentação mais saudável e IMC adequado para a idade, ressalta a pesquisadora.

 “Hábitos alimentares saudáveis nos primeiros anos de vida da criança refletem em um adulto/ idoso saudável, pois a ocorrência de doenças crônicas não transmissíveis é resultado, principalmente, dos hábitos de vida de um indivíduo e a alimentação é um dos principais fatores que interferem nestes hábitos”, revela Ana Amélia. Ela explica que, o aumento de casos de sobrepeso e obesidade nos últimos anos está relacionado ao aumento do consumo de alimentos ultraprocessados (industrializados) e redução do consumo de alimentos in natura e minimamente processados.

Expectativa de resultados

Professora Ana Amélia – Arquivo da pesquisadora

A coordenadora do projeto acredita que, com a execução do projeto proposto, será possível acumular novos conhecimentos e consolidar anteriores, além de subsidiar propostas de mudanças em algumas rotinas de assistência à saúde na atenção primária no âmbito do SUS. “Os resultados deste projeto poderão avaliar os diversos agravos que serão estudados, no curto e médio prazo, todos considerados importantes do ponto de vista epidemiológico. Entre esses agravos incluem a saúde mental materna, estado nutricional materno e infantil, com foco na retenção de peso pós-parto e ganho de peso do bebê, hábitos alimentares da mulher e bebê, entre outros desfechos que serão avaliados neste projeto”, destaca a professora.

Outra perspectiva de resultado é estimar a prevalência de aleitamento materno exclusivo, de cólicas intestinais em bebês e de introdução precoce de alimentos complementares. Diante dos resultados que serão obtidos, espera-se contribuir com elementos para nortear a formulação de políticas públicas de Goiás para a promoção da saúde materna durante a gestação e o pós-parto e consequentemente a promoção do aleitamento materno e a saúde materno-infantil.

“Com a colaboração de profissionais de saúde que atuam na saúde pública de Goiás, serão realizadas capacitações com os profissionais que atuam na atenção básica para a promoção da saúde materno-infantil e sugerir rastreio de possíveis desfechos, como saúde mental e estado nutricional, com o objetivo de melhorar a qualidade de assistência às mulheres que procuram atendimentos no serviço público de saúde de Goiás”, comenta Ana Amélia. Para ela, os resultados deste projeto, na forma de capacitações para os profissionais de saúde, poderão ser incorporados na gestão pública da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás e Secretarias Municipais.

Os resultados obtidos também contribuirão para o fortalecimento de Programas de Pós-Graduação, como o Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Saúde da UFG, do qual a professora Ana Amélia faz parte.

PPSUS

O PPSUS tem como objetivo fomentar e fortalecer pesquisas científicas, tecnológicas ou de inovação que tenham potencial para oferecer novos serviços e dar respostas a problemas prioritários de saúde enfrentados pela população usuária do SUS. Em Goiás, o PPSUS é conduzido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) em parceria com a Secretaria Estadual da Saúde (SES), o Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde (Decit/SCTIE/MS) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Equipe

Ana Amélia Freitas Vilela é docente da Universidade Federal de Jataí (UFJ) do curso de Medicina e ministra as disciplinas: Saúde Coletiva 2, Práticas de Integração Ensino, Serviço e Comunidade 1 e 2, Nutrologia, Atividade Integradora 2. É também docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Saúde (PPGNut) da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Goiás.

Compõem a equipe da pesquisa: Marília Mendonça Guimarães (UFG); Roberta Sena Reis (UFG); Adriana Assis Carvalho (UFJ); Michelle Rocha Parise (UFJ); Ana Beatriz Franco Sena Siqueira, Universidade Federal Fluminense; Juliana dos Santos Vaz, Universidade Federal de Pelotas; Adriana Rita Schultz Moreira, University Hospital Essen; Roberta Hack Mendes, University College Dublin. Da Secretaria Municipal de Saúde de Jataí participam: Caroline Gomes Martins Forte e Suziane Martins Severino. A equipe também é composta por discentes de mestrado e graduação do PPGNUT (UFG), FANUT (UFG) e do curso de Medicina (UFJ).

 Assessoria de Comunicação Fapeg (Por Helenice Ferreira)

 

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