Pesquisadores da UFJ fazem primeiro registro da Thismia panamensis (lanterna-de-fada) no Brasil

Print Friendly, PDF & Email

T.A identificação da planta se deu por meio dos trabalhos do PELD, programa fomentado pela FAPEG e CNPq. Artigo publicado em revista alemã, neste mês, produziu os primeiros conhecimentos sobre os mecanismos de dispersão de sementes para o gênero e ampliou o conhecimento ecológico para esse grupo de plantas, ainda bastante desconhecido.

Helenice Ferreira, da Assessoria de Comunicação da Fapeg

No solo de uma floresta urbana, em meio a galhos e folhas secas que caem e formam a serapilheira, pesquisadores da Universidade Federal de Jataí (UFJ) encontraram uma minúscula e efêmera flor de tons rosa-claro, que mede em torno de 3 a 6 centímetros. Uma planta que não apresenta folhas, não faz fotossíntese em nenhum momento de sua existência, e que obtém sua alimentação a partir da degradação de fungos que se alojam nas suas raízes (micoheterotrófica – capacidade de uma planta obter carbono via associação com fungos).

A planta é uma monocotiledônea do gênero Thismia, conhecida popularmente como lanterna-de-fada em função da sua semelhança com uma diminuta lanterna. Trata-se do primeiro registro da espécie Thismia panamensis para o Brasil e o primeiro da família botânica Thismiaceae para o Cerrado. Bem semelhante a outras espécies de Thismia, a T. panamensis apresenta diferenças na coloração e em suas estruturas reprodutivas. Ela só floresce durante três meses por ano, na estação chuvosa, e no restante do ano, apresenta apenas uma estrutura vegetativa arredondada de cerca de um centímetro que fica enterrada.

Thismia panamensis foi descoberta em uma reserva de floresta urbana da cidade de Jataí, no estado de Goiás, mais especificamente no Parque Natural Municipal da Mata do Açude, por volta de 2015, durante trabalhos de pesquisas patrocinados e apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) no âmbito do PELD – Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração, coordenado pelo biólogo e professor Frederico Guilherme, do curso de Ciências Biológicas. Com o registro inédito da ocorrência de T. panamensis no Cerrado, vários estudos seguiram em diferentes caminhos para melhor compreender a biologia da espécie e, consequentemente, a biodiversidade para a savana brasileira.

Artigo publicado
Capa da revista com o artigo dos professores Christiano e FredericoOs últimos estudos resultaram em um artigo intitulado Ombrohydrochory in Thismia panamensis (Standley) Jonk: a mycoheterotrophic species in Brazilian Cerrado forests, publicado na edição de julho deste ano na revista alemã Plant Biology, que também leva em sua capa a fotografia da planta, um registro do professor Christiano Peres Coelho. O artigo foi escrito pelos professores da UFJ Christiano Peres Coelho, Frederico Guilherme, Diego Ismael Rocha e pelos alunos do curso de Biologia Gabriel Eliseu Silva, Istela Sousa e Maryana Oliveira Azevedo. Plant Biology é um periódico de alto impacto e com edições bimestrais. Publica artigos científicos em diversas áreas da Botânica, tais como biologia celular e molecular, genética e desenvolvimento vegetal, sistemática, ecologia, ecofisiologia e evolução.

Os pesquisadores monitoraram 36 indivíduos durante o período reprodutivo, na floresta e em laboratório, e puderam avaliar como é feita a dispersão das sementes dessa planta. Eles descreveram toda a anatomia dos frutos e todos os mecanismos de dispersão de suas sementes por respingos de gotas de chuva, processo definido como ombrohidrocoria. “Isso quer dizer que quando o fruto está maduro, suas sementes ficam expostas e, quando uma gota de chuva cai sobre o fruto, lança as sementes para longe”, explica o professor Christiano P. Coelho. As sementes têm 0,5 milímetros de comprimento e o fruto não mais que 0,5 cm. Foi o primeiro registro de ombrohidorcoria para o bioma Cerrado, revela o professor.

Fruto maduro de T. panamensis

Detalhes das sementes de T. panamensis dentro de um fruto maduro. Foto: Christiano Coelho

As amostras foram submetidas às técnicas de microscopia de luz e microtomografia, além de um experimento para avaliar a dispersão das sementes por gotículas de água. As sementes ficam expostas, e seu revestimento apresenta uma parede delgada e lignificada. Foi observado acúmulo de secreções no interior dos frutos. A camada celular mais interna do ovário apresentava características típicas do parênquima aquífero. Os experimentos de respingos de água mostraram que as sementes atingiram uma distância média de 44,04 ± 26,58 cm. Cada respingo continha, em média, 1,50 ± 1,23 sementes, sendo 75% dos respingos contendo uma única semente. Um total de 239 sementes foi contado nos 163 respingos avaliados.

Distribuição geográfica

Expedição Peld

Professores Christiano Coelho e Frederico Guilherme em uma das expedições de campo do PELD. – Serra da Canastra. Foto: Marlon Zortéa

Os professores Frederico Guilherme e Christiano Coelho explicam que o gênero Thismia tem uma distribuição pantropical, com um centro de diversidade na Península Malaya, sudeste da Ásia, mas também nas Américas. O gênero duplicou sua diversidade nos últimos oito anos, como comprovam vários relatos de novas espécies em todo mundo, principalmente na Ásia. “Espera-se que essa diversidade seja ampliada também nas Américas”, diz o professor Christiano Coelho. Com relação à T. panamenseis os professores destacam que é difícil identificar a sua origem, visto que a espécie em questão apresenta diversos registros na América Central (Panamá) e América do Sul (Colômbia, Equador e Venezuela) e agora com um registro na região central do Cerrado.

Eles destacam que, inicialmente, T. panamensis era descrita como uma espécie endêmica das regiões florestadas da América Central e Norte da América do Sul. “Com nossos estudos, houve uma ampliação da distribuição geográfica do gênero na América e no mundo, criando uma lacuna na distribuição da espécie, o que estimula futuros estudos,” comenta Frederico Guilherme.

Ele ressalta ainda a importância dos estudos que produziram os primeiros conhecimentos sobre os mecanismos de dispersão de sementes para o gênero. “O estudo também oferece conhecimentos importantes que funcionarão como subsídios para a conservação de fragmentos florestais do Cerrado. A descoberta da ocorrência restrita dessa espécie dentro da unidade de conservação do Parque Natural Municipal de Jataí demonstra a necessidade de elaboração de um plano de manejo correto, de um ajuste adequado de zoneamento dentro do parque”, ressalta o pesquisador.

O professor Christiano Coelho lembra ainda que o grupo participa ativamente de palestras em diferentes níveis da educação, divulgando esses conhecimentos produzidos e demonstrando a importância dos fragmentos florestais para a conservação da biodiversidade. Do dia 27 de junho a 2 de julho o professor participa do 71º Congresso Nacional de Botânica, evento online, coordenando o simpósio “As Plantas Micoheterotróficas no Brasil”.

Habitat ameaçado

Parque Municipal da Mata do Açude

Parque Natural Municipal da Mata do Açude – local onde foi encontrada a T. panamensis.

O pequeno porte da T. panamensis a torna uma planta discreta, de pouca visibilidade em meio ao chão em poucos trechos mais úmidos dessa floresta urbana, que também possui uma área limitada. “É uma área com grande pressão antrópica e que acaba colocando a sobrevivência da espécie em risco. Em visitas a diversos outros fragmentos florestais na região, ainda não foram registradas novas populações”, revela o professor Frederico Guilherme. Ele conta que além de ser um pequeno trecho, o fragmento vem sendo fortemente ameaçado pela expansão urbana, sendo o lixo e especialmente as queimadas recorrentes, os principais reflexos dessa antropização.

“Todas essas questões aumentam a fragilidade da espécie. Nossos estudos vão subsidiar a elaboração de um manejo correto do parque para garantir uma maior chance de sobrevivência para a espécie. Atualmente, em função da sua limitada distribuição e em ambiente natural altamente frágil e suprimido, entendemos ser de extrema importância a preservação em condições satisfatórias de conservação do Parque Natural Municipal da Mata do Açude”, explica o professor.

O PELD

PELD

Coleta de ramos férteis de plantas nativas do Cerrado goiano no âmbito do PELD. Foto: Christiano Coelho.

O Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD) é mantido, financiado e chancelado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com as Fundações de Amparo à Pesquisa há mais de 20 anos e apresenta mais de 30 sítios de pesquisa em todo o território nacional. Os sítios PELD são áreas de referência em pesquisa ecológica no Brasil e estão distribuídos nos mais diversos ecossistemas do país, incluindo áreas preservadas e não-preservadas. São desenvolvidos estudos relacionados à biodiversidade, ecologia e relações com populações locais, coletando informações especialmente sobre longas séries temporais de dados sobre os ecossistemas e suas biotas associadas. Os sítios PELD têm papel destacado na formação de recursos humanos especializados, especialmente na pós-graduação, constituindo polos de nucleação de grupos de pesquisa.

Em Jataí, o projeto PELD CEMA (Cerrado e Mata Atlântica) está sediado na Universidade Federal de Jataí (UFJ). Desde o segundo semestre de 2013, o projeto já recebeu fomentos da FAPEG da ordem aproximada de R$ 400 mil, entre bolsas de estudos, equipamentos e custeio, promovendo estudos ecológicos e de monitoramento da fauna e flora silvestres.

O projeto de Jataí é intitulado Inventários e ecologia da biota em formações savânicas e florestais do oeste e sul goiano: novas áreas para conservação e manejo de ecossistemas. “Nossos estudos têm como foco central, levantar e monitorar a flora e a fauna nas regiões centro-sul e sudoeste goiano, abrangendo tanto os sítios de pesquisa já consolidados como remanescentes florestais em áreas de tensão ecológica entre Cerrado e Mata Atlântica no estado de Goiás, como sítios em áreas protegidas e outros localizados em propriedades particulares, em áreas mais fragmentadas ou com situações diversas de distúrbios antrópicos, o que possibilita a complementariedade e comparação”, diz o professor Frederico Guilherme.

O professor destaca que também são conduzidos estudos socioambientais e etnobotânicos com a população do entorno dos sítios em áreas protegidas ou em processo de implementação. “Isso certamente vai promover a aproximação entre a população, a comunidade científica e os gestores públicos, que são parceiros da atual proposta. Essas questões aliadas à modelagem ecológica dos dados dos sítios e espécies raras e/ou ameaçadas visam suprir lacunas no conhecimento e apoiar a investigação de temas de pesquisa para subsidiar a gestão ambiental, incluindo tomada de decisão e formulação de políticas públicas nos nossos sítios”, ressalta.

Segundo o professor, “desde o início dos estudos do PELD, já passaram ou ainda fazem parte da equipe executora, aproximadamente 60 profissionais e pesquisadores, entre professores, técnicos, gestores públicos, pós-doutorandos, doutorandos, mestrandos e graduandos”. Ele destaca que o Programa conta com, aproximadamente 10 instituições parceiras, entre elas, universidades internacionais. “Os sítios de nossas pesquisas estão distribuídos em mais de 15 municípios localizados principalmente em Goiás, mas também em outros três estados brasileiros”, diz o pesquisador. O PELD CEMA já deu oportunidades para a publicação de aproximadamente 50 produtos de pesquisa, entre artigos em revistas científicas nacionais e internacionais e capítulos de livro, além de diversos trabalhos apresentados em eventos científicos.

Edição de Julho da revista Plant Biology:
 https://onlinelibrary.wiley.com/toc/14388677/2021/23/4

Artigo publicado na revista:
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/plb.13250

Posted in Especiais, Notícias, Notícias FAPEG.