Pesquisa avalia estratégias da Rede de Atenção Psicossocial no enfrentamento dos impactos psicossociais da pandemia de Covid-19

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Ilustração do Guia de Saúde Mental

O estudo envolverá profissionais dos 93 Centros de Atenção Psicossocial, todos os serviços de Atenção Primária à Saúde, os 11 Hospitais Gerais e quatro Hospitais Campanha de referência para Covid-19, todos dispositivos de saúde integrantes da Rede de Atenção Psicossocial do estado de Goiás.

Helenice Ferreira, da Assessoria de Comunicação da Fapeg

O Brasil registrou nesta terça-feira, dia 26 de outubro, a marca de 21.748.984 casos confirmados de covid-19 desde o início da pandemia, com 606.246 óbitos acumulados. Esta, que está sendo uma das maiores crises sanitárias do planeta, pode estar desencadeando, também, uma pandemia paralela, oculta aos olhos da população.  Ainda que o isolamento dos casos suspeitos, a quarentena e o distanciamento social sejam estratégias fundamentais para conter o avanço destes números, estas medidas estão alterando a conexão social, as rotinas diárias e o acesso a recursos essenciais à saúde mental humana, o que impõe alto estresse e complicações a toda população e ainda mais às pessoas mais vulneráveis, como os portadores de transtornos psiquiátricos ou com problemas relativos ao uso abusivo de álcool ou outras drogas.

Esta mudança repentina na rotina de vida e de trabalho das pessoas tem provocado impactos na saúde mental, igualmente preocupante, para os profissionais de saúde que estão na linha de frente do cuidado às pessoas com covid-19 e que estão expostos a longas horas de trabalho. O risco de contaminação, medo de contaminar a família e colegas, sendo esta situação agravada quando há escassez de equipamentos de proteção individual são alguns dos elementos desencadeadores de estresse, depressão, ansiedade e outros danos psicológicos. Evidências apontam que a maioria dos profissionais de saúde que trabalham em hospitais e unidades de isolamento não recebem treinamento para prestar assistência em saúde mental.

Os impactos psicossociais nos âmbitos individual e coletivo devem ser considerados como um problema de saúde pública, pois podem ser drásticos e se tornarem ainda mais permanentes do que a própria pandemia. Para oferecer uma resposta completa para essa crise é preciso adicionar o componente saúde mental entre os objetivos urgentes e cruciais para a saúde, incluindo o desenvolvimento e implementação de avaliação, apoio, tratamento e serviços de saúde mental em resposta ao surto mundial de coronavírus.

Se a saúde mental já era um fator preocupante antes da pandemia, agora o tema deve ganhar uma atenção maior. Estudos apontam para aumento significativo de depressão, ansiedade, consumo de álcool e outras drogas, insônia, síndrome de Bournout, entre outros problemas. Um estudo para avaliar as estratégias da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do estado de Goiás no enfrentamento dos impactos psicossociais da pandemia de covid-19 começa a ser desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), coordenado pela professora Camila Cardoso Caixeta.

O projeto de pesquisa foi selecionado por meio da Chamada Pública nº 05/2020 – 7ª Edição do Programa Pesquisa para o SUS: Gestão Compartilhada em Saúde (PPSUS), lançada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e vai receber um fomento de R$ 100.700,00.

Saúde mental e trabalho
Os pesquisadores vão analisar o contexto da pandemia covid-19 no impacto na saúde mental dos profissionais de saúde e gestores que atuam nos Hospitais de Referência e nos serviços de atendimento de urgência e emergência para atendimento dos casos em Goiás. Vão ainda, analisar os fatores associados dos processos de trabalho das equipes da Atenção Primária em Saúde (APS) e dos Centros de Atenção Psicossociais (CAPS) no enfrentamento das questões psicossociais relacionadas à pandemia; e conhecer os processos de trabalho dos profissionais de saúde dos Hospitais Gerais e de Campanha no enfrentamento destas questões. Ao final, a equipe vai descrever as dificuldades de gestores de diferentes serviços e níveis de atenção no enfrentamento dos impactos psicossociais relacionados à pandemia e sistematizar a elaboração e implantação de um Plano de Contingência para o estado de Goiás.

O cenário do estudo envolverá os 246 municípios do Estado de Goiás, onde há 93 Centros de Atenção Psicossocial, todos os serviços de Atenção Primária à Saúde, os 11 Hospitais Gerais e quatro Hospitais Campanha de referência para COVID-19, todos dispositivos de saúde integrantes da RAPS. Trata-se de um estudo de método misto. A abordagem quantitativa será realizada por meio de um estudo transversal analítico sobre os processos de trabalho das equipes de saúde que fazem parte da RAPS. A abordagem qualitativa será desenvolvida nos moldes da pesquisa-intervenção.

A pesquisadora entende que, avaliar as estratégias de enfrentamento da Covid-19 nos serviços de saúde contribuirá para o desenvolvimento de ações em diferentes níveis de atenção. “O conhecimento deste estudo subsidiará as decisões e estratégias de intervenção na esfera governamental e não governamental, além de contribuir no processo de formação dos profissionais da rede. Temos a convicção de que os resultados oriundos deste projeto subsidiarão o desenvolvimento e/ou aprimoramento dos processos de educação permanente e interprofissional dos profissionais da saúde do Estado de Goiás, além da formação de pesquisadores/professores em nível de pós-graduação”, comenta a pesquisadora.

Ela enumera outras contribuições do projeto para a gestão estadual em etapas como monitoramento de ações, por meio da qualificação dos registros de procedimentos de CAPS; estabelecimento de georreferenciamento de ações do Centro de Informações e Decisões Estratégicas em Saúde (ConectaSUS); elaboração e qualificação de informes técnicos para as equipes da RAPS/Goiás. “Consequentemente, esperamos o fortalecimento da RAPS no estado de Goiás, decorrentes da estruturação e qualificação dos técnicos,” destaca a pesquisadora.

Papel da RAPS

A pandemia da covid-19 agravou situações de saúde pré-existentes e revelou necessidade de fortalecimento e ampliação da Rede de Atenção Psicossocial para garantir direitos de assistência integral e continuada da Saúde Mental na Atenção Primária e Centro de Atenção Psicossocial. Camila Caixeta explica que a RAPS exerce um papel fundamental na adoção urgente de medidas de prevenção, controle e contenção de riscos, danos e agravos à saúde pública. Também demanda cuidados especiais na atenção psicossocial, devido ao potencial agravamento de crises e sofrimentos psíquicos na população em geral e principalmente dos profissionais de saúde na linha de frente ao cuidado às pessoas com covid-19. A rede, segundo a pesquisadora, cuida de atendimentos psicossociais individuais e em grupo de profissionais de saúde que estão na linha de frente ao combate à covid-19, acompanhamento de pessoas que já vinham sendo atendidas nos serviços de saúde mental, grupos terapêuticos sobre perdas e lutos, entre outros.

Camila Caixeta leciona as disciplinas Saúde Mental e Enfermagem Psiquiátrica na Faculdade de Enfermagem da UFG. É também vice-líder de pesquisa Recuid, Grupo Multidisciplinar em Pesquisa e Intervenção em Saúde Mental.

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