Governo aporta R$ 495 mil para diagnóstico do manejo da irrigação e desenvolvimento de software para eficiência da irrigação do tomate industrial

A ideia é convencer o agricultor a fazer o uso correto oferecendo um software com interface de fácil entendimento e manuseio

Tomate irrigado

Helenice Ferreira, da Assessoria de Comunicação da Fapeg

No tomate industrial, assim como em todo alimento que chega à mesa da população, a ciência está presente nos bastidores, seja para vencer barreiras climáticas, combater pragas, aumentar a produção e produtividade, tornar mais saboroso e nutritivo, reduzir custos, criar novas espécies, em atenção à sustentabilidade do planeta, entre outras razões. Do plantio até a mesa do consumidor, direta ou indiretamente, os alimentos carregam resultados de muitas pesquisas. A bioinformática é uma área da ciência que acompanha e acelera o processo de melhoramento dos alimentos.

Frente à demanda mundial por maior eficiência no sistema produtivo de alimentos e o forte e necessário apelo pelo uso racional da água, em Goiás, o pesquisador e professor da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG), José Alves Júnior está desenvolvendo o projeto “Manejo de Irrigação da Cultura de Tomate Industrial no Estado.” O projeto busca reunir e fornecer informações básicas e avançadas para, por meio de um software, dar oportunidade para que o produtor possa fazer o planejamento e manejo da irrigação através do uso racional da água e trabalhando pela sustentabilidade na produção do tomate industrial, que é uma cultura 100% irrigada. José Alves Júnior é um dos coordenadores do Núcleo de Pesquisa em Clima e Recursos Hídricos do Cerrado da EA-UFG.

Apoio da Fapeg
O projeto conta com o apoio financeiro do Governo de Goiás, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), através de um acordo de cooperação técnica firmado com a UFG. O acordo, no valor de R$ 495 mil é inserido na modalidade Projeto Estratégico. O pesquisador José Alves Júnior se propôs a comparar o que o produtor faz com o que ele deveria fazer, apresentando as consequências agronômicas e ambientais do mau uso da água.

A ideia é convencer o agricultor a fazer o uso correto oferecendo um software com interface de fácil entendimento e manuseio para que possa ser operado pelo próprio produtor rural para identificar o momento certo para o plantio e o volume adequado de água para a irrigação da sua lavoura. As irrigações excessivas na cultura do tomate favorecem a incidência de pragas e doenças, além de promover perdas dos nutrientes do solo por lixiviação (processo erosivo decorrente da lavagem da camada superficial do solo), explica o pesquisador.

“O software que temos aperfeiçoado é de fácil uso. Basta o usuário escolher o município goiano que pretende cultivar o tomate, escolher a data de transplantio, dados da lâmina mínima de irrigação que seu pivô central aplica, e o software já fornece o calendário de irrigação e a velocidade que o equipamento pivô central precisa ser ajustado para cada irrigação”, explica o pesquisador. Segundo ele, uma nova versão do software está sendo elaborada em parceria com a Embrapa, e irá se chamar IrrigaTomate. A nova versão em breve será divulgada, tanto para o site como pelo aplicativo de celular.

“Em Goiás, o manejo da irrigação ainda é feito de maneira empírica pelos produtores, e é nisso que este projeto se propõe a ajudar”, revela o professor da UFG. Ele aponta que, o custo de uma estação meteorológica automática, a falta de homogeneidade das leituras de tensiômetros e de sondas para a obtenção da umidade do solo, a dificuldade de programação, utilização e interpretação de planilhas eletrônicas são fatores que dificultam e até mesmo inviabilizam uma prática de irrigação correta.

“Adaptamos uma planilha simplificada que a Embrapa havia desenvolvido para um programa de computador de fácil acesso, compreensão, manuseio e interpretação dos resultados”. No software, são inseridos, como dados de entrada: municípios goianos, híbridos de tomateiro, data de transplantio, textura do solo, umidade inicial do solo, lâmina bruta e tempo mínimos referente a uma volta do pivô-central na máxima velocidade. Os dados de saída, ou seja, os gerados pelos software são: calendário de dias irrigados e regulagens do percentímetro em cada fase do desenvolvimento do tomateiro.

O artigo Planilha Eletrônica para Planejamento de Manejo de Irrigação na Cultura do Tomate Industrial em Goiás, publicado em 2019, faz a divulgação do software, e pode ser acessado aqui.

A pesquisa
A pesquisa teve início em março de 2018 com previsão de término em março de 2021. Está sendo desenvolvida junto a cerca de 200 produtores que estão no raio de 100 km de Goiânia e que produzem em mais de 10 mil hectares. Cerca de 60% do projeto já foram executados. Atualmente os produtores já estão se beneficiando com dados meteorológicos em tempo real seja pelo site ou pelo aplicativo. Como parte do projeto de pesquisa, os produtores rurais estão recebendo treinamentos e capacitações para utilizar a ferramenta em suas áreas irrigadas. Eles já têm se beneficiado com os resultados preliminares do diagnóstico do manejo, apresentados em cursos e palestras ministrados pelo coordenador do projeto. Em 2019, foram proferidas quatro palestras sobre o tema da pesquisa. As palestras foram apresentadas em Itumbiara, Goianésia, Cristalina e em Paraúna, atingindo um público total de mais de 200 pessoas (produtores, profissionais e estudantes).

Em 2018 e 2019 foram ministrados cinco minicursos (Curso de Irrigação por Pivô Central, com um módulo especial para manejo da irrigação) realizados na Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás em Goiânia (abertos para toda comunidade, onde no total foram capacitadas mais de 100 pessoas).

Etapas
Foram monitoradas em Goiás, de 2018 a 2019, nove áreas de produção de tomate para indústria, irrigadas por pivô central. Em Anápolis (1), Gameleira de Goiás (1), Silvânia (2), Piracanjuba (2), Hidrolândia (1) e Palmeiras de Goiás (2). Outras cinco áreas estão sendo avaliadas em 2020 (Piracanjuba, Palmeiras de Goiás, Hidrolândia, Itaberaí e Silvânia, cujos dados estão em processamento.

Testes do projeto

Análise de interceptação de Radiação Solar – IAF, em campo, para os solos das cinco áreas de estudo cultivadas com tomate para indústria.

O pesquisador explica que, as lâminas de irrigação aplicadas foram registradas utilizando pluviômetros instalados nas áreas de cultivo, e as demandas hídricas foram estimadas a partir de coeficientes de cultura recomendados para o cultivo em solo de preparo convencional (Embrapa), e pelas evapotranspirações de referência (Modelo de Penman Montheith) obtidas a partir de dados meteorológicos de estações instaladas in loco.

O conteúdo de água no solo foi monitorado na camada de 0-0,5 m. Os resultados mostraram que as demandas hídricas variaram de 280,3 a 436,8 mm, em 109 a 129 dias de ciclo. José Alves Júnior ressalta que o diagnóstico revelou que em todas as áreas avaliadas ocorreram erros nos manejos de irrigação quando analisado o total de água aplicado no ciclo. O erro médio foi de 66,9 mm por excesso (77,8% das áreas), e 25,3 mm por déficit (22,2% das áreas).

O estudo, segundo o pesquisador, ainda revelou que em média 44% das irrigações foram realizadas na frequência errada, com os equipamentos pivôs centrais operando abaixo da velocidade mínima permitida, o que pode ter ocasionado escorrimento de água. Foram observadas também, manchas de solos com camadas compactadas em todas as áreas (resistência a penetração e densidade de solo acima de 2000 kPa e 1500 Kg m-3, respectivamente).tomate irrigado pivô

Por fim, ao registrar todos os dados, foi elaborado o software contendo o programa de manejo da irrigação da cultura do tomate. A inovação do projeto, conforme explica o pesquisador José Alves Júnior, está em gerar informações que mostrem ao produtor que os benefícios do uso racional da água não estão apenas na economia de água e energia, mas também, na economia de fertilizantes e defensivos com a redução da lixiviação de insumos, que terão um melhor aproveitamento e com menor impacto nos recursos hídricos, aumentando o lucro tanto econômico e social quanto ambiental.

Bons frutos
“Após a realização deste estudo acreditamos que produtores e agroindústrias pagarão os custos de pesquisas continuadas nessa linha, e modernizarão o sistema produtivo, beneficiando toda população”, diz o pesquisador. Produzindo mais tomate com menos dinheiro, o projeto contribuirá para produção de alimentos menos contaminados, reduzindo impactos ambientais com a redução da lixiviação de insumos e com menor impacto nos recursos hídricos.

Importância do Fomento
O fomento da Fapeg foi aplicado na compra de equipamentos e no custeio do projeto de maneira geral, destaca o professor. O valor financiado tem sido utilizado para compra de equipamentos como estações meteorológicas, sensores de umidade do solo, computador e sistema de aquisição de dados, e ainda para aquisição de dados e processamento de campo, que registram o quanto de água que o produtor tem aplicado e o quanto ele deveria ter aplicado. O valor solicitado para insumos e diárias tem sido utilizado para custear a coleta, processamento e análise dos dados, além de manutenção de equipamentos. As importações de materiais necessários para o projeto têm sido realizadas com o apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa (Funape). O projeto conta ainda com uma bolsa no valor de R$ 1.100,00.

Maior produtor do País
Atualmente o Estado de Goiás é o maior produtor nacional de tomate para processamento industrial ficando responsável por 86% desta produção, seguido por São Paulo (12,7%) e Minas Gerais (1,3%). As maiores áreas de cultivo, em Goiás, concentram-se em Goianésia, Itaberaí, Cristalina, Piracanjuba, Palmeiras de Goiás, Anápolis, Silvânia, Morrinhos, e são em sua maioria, de grande porte e administradas por produtores com estrutura empresarial, providos de assistência técnica fornecida pelas agroindústrias.

Sendo o tomate industrial uma cultura 100% irrigada, em Goiás, o plantio é feito de fevereiro a junho, e mais de 90% das áreas são irrigadas por pivô central, e uma pequena parcela, por gotejamento, menos de 10% das áreas.

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