Estudo busca minimizar sequelas em sobreviventes de casos graves de Covid-19

Pesquisa que utiliza fisioterapia na reabilitação pulmonar receberá R$ 141 mil do Governo de Goiás

Helenice Ferreira, da Assessoria de Comunicação da Fapeg

O avanço da pandemia de Covid-19 desafia a ciência na busca de soluções emergenciais para o que se tornou a maior e pior crise sanitária do século. Embora o mundo esteja sobrecarregado com as previsões, é vital que se pense e se prepare, também, para os problemas secundários desta pandemia.

Nesse sentido, pesquisadores do Centro Universitário de Anápolis (UniEvangélica) têm dado uma atenção especial para uma reabilitação mais precoce de sobreviventes de casos pós-intensivos da doença. “A ideia de que pacientes, sobrevivendo à UTI e entubação para ventilação mecânica dos pulmões por várias semanas podem receber alta e irem para casa sem mais atenção médica é uma ilusão perigosa”, afirma o professor e pesquisador da UniEvangélica, Luís Vicente Franco de Oliveira.

Luís Vicente explica que o tratamento clínico intensivo a que são submetidos os pacientes da forma grave da Covid-19, incluindo ventilação mecânica invasiva (VMI) prolongada, sedação e uso de agentes bloqueadores neuromusculares, pode levar à Síndrome Pós-Terapia Intensiva (SPTI). “À medida que os pacientes melhoram e recebem alta para casa, a pandemia tem nos deixado um tremor secundário: a recuperação das sequelas da doença respiratória grave e deficiências secundárias resultantes de tratamentos intensivos, incluindo polineuropatia por doença crítica (CIP) e miopatia por doença crítica (CIM), como parte da SPTI”. Segundo o pesquisador, muitos pacientes sobreviventes de doenças críticas apresentam um considerável comprometimento funcional devido à fraqueza muscular adquirida na UTI, o que acaba corroborando para o aumento da morbimortalidade.

Em busca de apoio para desenvolver um estudo que comprove a eficácia do tratamento de reabilitação pulmonar em pacientes que contraíram Covid-19, o professor e pesquisador Luís Vicente Franco de Oliveira apresentou o projeto intitulado “Programa de Reabilitação Pulmonar Ambulatorial e Domiciliar COVID-19” à convocação pública promovida pelo Governo de Goiás, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg).

O projeto foi selecionado e irá receber R$141.578.05 do Governo de Goiás, que serão destinados à compra de equipamentos para a execução do estudo. Entre os itens estão bicicletas e esteiras ergométricas para reabilitação, um espirômetro para a realização de provas de função pulmonar, dois manovacuômetros para testes de força muscular respiratória e um equipamento para teste de força muscular dos membros superiores. Também serão adquiridos materiais de consumo descartáveis para a realização dos exames nos pacientes.

O apoio do governo irá auxiliar na elaboração de um consenso sobre os benefícios de Programas de Reabilitação Pulmonar para pacientes recuperados do novo coronavírus. “Para pacientes com sequelas de Covid-19 ainda não temos resultados na literatura científica devido ao fato desta ser uma doença nova. Isto aumenta a nossa responsabilidade devido ao ineditismo de nossa proposta”, considera o professor.

Luís Vicente explicou ainda que já existem consensos nacionais e internacionais que confirmam e reforçam os benefícios de Programas de Reabilitação Pulmonar no tratamento de outras doenças pulmonares, como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), asma, bronquite, bronquiectasias, fibroses pulmonares.

A convocação emergencial de projetos de enfrentamento da Covid-19 buscou facilitar o direcionamento de recursos do Governo de Goiás para a viabilização de ações estratégicas que pudessem contribuir para a redução dos impactos da pandemia de Covid-19. A iniciativa partiu da Secretaria de Desenvolvimento e Inovação (Sedi), por meio da Subsecretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, e contou com apoio da Fapeg e da Secretaria Estadual de Saúde.

Professor Luís Vicente

Além disso, a UniEvangélica assumirá como contrapartida do projeto o investimento na disponibilização e organização da estrutura a ser destinada às atividades do Programa de Reabilitação Pulmonar. Será um espaço exclusivo para atendimento ao Programa, composto por sala de espera, consultório completo para avaliação clínica, espaço para realização das atividades de treinamento e instalações sanitárias, oxigenioterapia de suporte e equipamentos de proteção individual (EPI’s) para pacientes e profissionais, entre outros insumos. Também como contrapartida da Instituição está o envolvimento de vários profissionais de saúde, tais como médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e profissionais de Educação Física que dedicarão uma carga horária semanal junto ao Programa. A estimativa é de uma contrapartida institucional de cerca de R$ 200 mil.

Benefícios
O projeto de pesquisa propõe um estudo clínico, prospectivo, consecutivo multicêntrico composto por sujeitos portadores de sequelas pulmonares de Covid-19 e de outras doenças pulmonares que procurem por atendimento nos serviços de atendimento em Pneumologia e/ou Clínica Médica, municipais e estaduais de Anápolis e região administrativa de saúde. A seleção dos pacientes será feita via Regional de Saúde Pirineus de Anápolis.

Luís Vicente espera sejam obtidos benefícios a curto, médio e longo prazo entre pacientes que participem do Programa de Reabilitação Pulmonar (PRP) Ambulatorial e Domiciliar. A melhora deve ser verificada em relação a redução da fadiga e dispneia, aumento da capacidade funcional e de exercício, redução das limitações de atividades de vida diária, melhora da qualidade de vida, do humor e motivação, aumento da aderência aos tratamentos clínicos recomendados, aumento da participação nas decisões de terapia, fortalecimento da capacidade de autogestão do paciente, redução da quantidade de cuidados de saúde para pacientes, famílias e comunidades, incluindo redução do número de hospitalizações e aumento da sobrevivência, com consequente redução dos custos em saúde para o Estado. “Esperamos que os pacientes com sequelas pulmonares de Covid-19 possam apresentar os mesmos benefícios que os demais pacientes com doenças respiratórias alcançam”, diz o pesquisador.

Umas das características principais do Programa de Reabilitação Pulmonar é o fato de ser individualmente moldado de acordo com a característica clínica e funcional de cada paciente, após uma avaliação detalhada, explica Luís Vicente. “Tendo em vista que o treinamento físico é fundamental, a reabilitação pulmonar promove intervenções abrangentes, incluindo, entre outras, suporte psicológico e nutricional, além de mudanças educacionais e comportamentais”, ressalta o pesquisador. O objetivo da reabilitação pulmonar será, não apenas melhorar as condições físicas e mentais do paciente, mas também ajudá-lo a retornar à família e à sociedade mais rapidamente”, considera.

Execução da pesquisa
O cálculo amostral inicial do estudo prevê a participação de 80 pacientes divididos em dois grupos. Um grupo de Reabilitação Pulmonar Ambulatorial e outro grupo de Reabilitação Pulmonar Domiciliar. Inicialmente, todos os pacientes serão submetidos a uma avaliação física, provas de função pulmonar e avaliação nutricional, além de serem aplicados a escala de dispneia modificada do MMRC (Modified Medical Research Council) e o teste de caminhada de seis minutos, de acordo com as normas preconizadas pela American Thoracic Society (ATS).

Fisioterapia

Laboratório de Reabilitação Pulmonar da UniEvangélica

O projeto será executado no Laboratório de Reabilitação Pulmonar do Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Mestrado e Doutorado em Movimento Humano e Reabilitação da UniEVANGÉLICA, contando também com envolvimento do Hospital de Urgências de Anápolis (Huana) e do Hospital Evangélico de Anápolis, ambos referência para o atendimento de pacientes com Covid-19. As atividades terão início no dia 15 de agosto e serão coordenadas pelo professor Luís Vicente Franco Oliveira com o apoio de equipe multidisciplinar composta por fisioterapeutas, médicos, profissionais de Educação Física, nutricionistas, enfermeiros e psicólogos, todos professores e pesquisadores da UniEVANGÉLICA .

A pesquisa aguarda a aprovação do protocolo de pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UniEVANGÉLICA, que será registrado no ClinicalTrials.gov, um dos mais importantes órgãos de controle de pesquisas científicas do mundo.
A proposta inicial para execução do programa é de dois anos, mas Luís Vicente explica que, como a proposta do projeto também prevê a assistência a pacientes com doenças pulmonares crônicas, a intenção é que ele tenha continuidade além dos anos iniciais propostos.

Etapas
Durante os dias das primeiras avaliações do Programa, todos os pacientes participarão de um programa educacional, onde receberão informações sobre o desenvolvimento e progressão da doença, sobre o seu tratamento, tanto medicamentoso como não-medicamentoso, uso correto do oxigênio e importância de participar de um programa de reabilitação baseado em exercícios. Todos os pacientes receberão uma cartilha com o conteúdo do programa educacional.

Os pacientes passarão também pelo PRP ambulatorial, que consistirá em uma combinação de exercícios aeróbicos e de fortalecimento, com duração de 12 semanas, três vezes por semana. Cada sessão será composta por exercícios ativos de aquecimento, fortalecimento de membros superiores e inferiores, condicionamento aeróbico e exercícios de alongamento.

A fase de aquecimento consiste em exercícios físicos calistênicos intercalados para diferentes grupos musculares, de acordo com a tolerância de cada paciente. Os exercícios de fortalecimento de membros superiores e inferiores serão realizados na posição sentada, de maneira confortável, com halteres e caneleiras. Todos os exercícios serão realizados até a amplitude máxima alcançada pelo paciente, associados ao padrão respiratório diafragmático e freno-labial. O condicionamento aeróbico do PRP ambulatorial consistirá de caminhada em esteira ou bicicleta por 30’, com intensidade de 60 a 80% da frequência cardíaca máxima atingida no TC6’, sendo monitorados durante todo o treinamento. Será permitido aos pacientes reduzirem a intensidade do treino ou cessarem, se necessário, de acordo com o grau de dispneia ou sintomatologia, como tonturas ou desconforto incomum no peito ou nos membros.

Na fase do PRP domiciliar, os pacientes realização a mesma combinação de exercícios de fortalecimento de membros superiores (MMSS) e membros inferiores (MMII) do PRP ambulatorial. Em caso de algum paciente não possuir condições financeiras para aquisição dos halteres e caneleiras, serão manufaturados pesos para a mesma função.

Inicialmente, os pacientes deste grupo receberão o treinamento do programa de exercícios por um profissional da saúde especializado do projeto e serão encorajados a seguir o protocolo em casa. O condicionamento aeróbico dos integrantes deste grupo será realizado por meio de caminhada, à sombra, em terreno plano por 30 minutos, respeitando-se a tolerância individual, sendo automonitorados durante todo o treinamento.

Para este grupo de pacientes será solicitado o preenchimento de um diário para cada sessão de treino. Durante as 12 semanas de treino, os indivíduos irão receber ligações semanais do mesmo profissional do projeto no sentido de acompanhar o incremento de carga, detectar qualquer tipo de problema, tirar possíveis dúvidas e reforçar a importância da reabilitação. Será recomendado aos pacientes diminuírem a intensidade ou cessarem o exercício, em caso de alto grau de dispneia ou qualquer outro sintoma de desconforto. Os critérios de utilização de oxigênio e o protocolo de incremento de carga nos exercícios de MMSS e MMII serão os mesmos do grupo ambulatorial.

Ao longo do programa, também serão realizados atendimentos na área de psicologia da saúde com o objetivo de reduzir o estresse gerado nos pacientes em função da da internação prolongada em UTI. O atendimento será realizado por membros da equipe multidisciplinar em formato de sessões de terapia breve ou longa, quando houver necessidade.

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